Saga do Guerreiro Morto

 

 

Saga do Guerreiro 

Meu depoimento

 

Elaborando o primeiro projeto para o Pequeno Mobiliário Brasileiro que nunca foi realizado, inclinei-me a dar voltas em torna de figuras caídas, muitas delas com morte violenta entre outras poses. É preciso lembrar que estávamos no início dos anos 1970 e que um regime militar recrudescia no Brasil havia já uns anos e que estávamos todos alertas. Pouco tempo havia passado desde as minhas Imagens de Urgência e o tema ainda me assombrava. O que foi antes um baile apenas politicamente incorreto, refiro-me ao primeiro projeto para o Pequeno Mobiliário..., passou a ser cena macabra.

Esboços e anotações imaginavam o que teria acontecido com esse ou aquele cujo destino era apenas noticia vaga; e o que poderia vir a acontecer...

Havia os que insistiam em defender um ideal, outros se rebelavam contra o estado das coisas. Guerreiros, portanto.

E em Guernica, Picasso, encontrei o retrato do sofrimento temido, nas figuras femininas e o retrato do sofrimento presente no guerreiro morto, no primeiro plano.

Solitário, com sua espada partida, o guerreiro que se vê em Guernica é muitas vezes interpretado como “Espanha vencida pelo facismo”, “herói da resistência inglória”, “derrota do oprimido diante do opressor” e tantas outras interpretações igualmente fáceis e panfletárias. É provável que Picasso tenha pensado assim, como se diz por aí, dada a circunstância dessa pintura.

Fui mais longe, ou mais para o fundo, ajudado pela elaboração dos “estofados” das quatro figuras femininas cujas tragédias iluminei com Portinari, nosso “pintor oficial”; com Duchamp e a lamparina de Étand Donné; O Massacre dos Inocentes de Poussin, exemplares da postura física para essas quatro mulheres em seu sofrimento. Um universo onde minhas figuras passaram a respirar.

É nesse quadro que a figura do guerreiro morto remete a heróis lendários, exemplos superestruturais para o nosso cotidiano (“viver é perigoso” diz Guimarães Rosa em Grande Sertão, Veredas. Ou “é preciso viver a vida a sangue frio” diz Roberto Bicelli no poema bandeira>cummings>dalí de Antes que eu me Esqueça). Mas há a espada partida! Uma Durindana fracassada? A Tizona empunhada pelo morto?

De todo modo emergem dois heróis ligados pela morte, de um modo ou de outro, à mitologia da Espanha, como o é Guernica e seus personagens: Roland e sua Durindana encantada; El Cid, morto, empunhando a Tizona

Desses muito me tocou a Chanson de Roland, anônimo do séc. XII, originalmente em Langue D’Oil que desconheço, de cujo último verso transcrevo o canto CLXXV na versão italiana que tenho:

 

Il conte Orlando giace sotto un pino,
verso la Spagna tiene volto il viso.
Di molte cose gli ritorna alla mente,
di tante terre quante ne prese il prode,
la dolce Francia, quelli del suo lignaggio

Carlomagno che l’allevò, suo signore;
non può impedirsi di sospirare e pianger

 

Em tradução assistida:

Conde Rolando (Roldão em Portugal) jaz sob um pinheiro
em direção a Espanha, tem seu rosto virado.
Muitas coisas lhe vêm à mente:
tantas terras que o valente conquistou;
doce França; aqueles de sua linhagem;
Carlos Magno, que o criou, seu senhor.
Não pode evitar suspirar e chorar.

 

Nesse ponto decidi que o Estofado para o Guerreiro Morto seria performance

 

Eis por que andei passeando em torno dessa personagem, muitas vezes imaginando-o como alter ego

À série dessas anotações e desenhos dei o nome de Saga do Guerreiro Morto, o que de fato é. Um desses esboços, De Alonso Cano para o Guerreiro Morto, inspirado em um pequeno desenho, 16X15 cm, de Alonso Cano, Nu Feminino, séc. XVII do qual o corpo feminino nu, robusto, em repouso lânguido, serviu de modelo para que ao torna-lo masculino, conservasse a delicadeza e sensualidade indicadoras de final de outras urgências, gerou um desenho acabado que já não está mais comigo. Dele tenho apenas uma foto de pouca qualidade que incluo como mero documento. Leva o título simples: Desenho.

Gabriel Borba 2019

 

Conjunto da Obra

Figura

Pequeno Mobiliário Brasileiro

Saga do Guerreiro Morto