Ambiente de Confrontação

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Ambiente de Confrontação.

Meu depoimento em junho de 2012

Para Adriana Palma

 

Era 1972.  Estava em andamento a peça Gracias Señor do José Celso Martinez Correia apresentada no Teatro Ruth Escobar.

Tratava-se de criação coletiva do Teatro Oficina, obra de ruptura, empunhando a bandeira de uma vertente vivencial para o teatro. Manifestações seguintes passaram a usar Te Ato como paradigma de Teatro. Incluindo “atar mais ato” à sonoridade de “teatro”.

Meu aluno e amigo  Marcelo Kahns, do Departamento de Teatro da ECA USP, por razões que se pode imaginar, aproximou-me da “troupe” com o que convivi por uns tempos, tomando parte dos laboratórios, exercícios e, não lembro bem, alguma apresentação.

Em uma ocasião levei um grupo de artistas e intelectuais a um dos ensaios, entre eles Vilém Flusser de quem eu era assistente; Alan Meyer, hoje psicanalista; Anésia Pacheco Chaves e Ely Bueno, artistas e não lembro se mais alguns. Lembro que o Flusser não ficou muito, saindo irritado exclamando que não se pode voltar atrás dos gregos...

De fato, o espetáculo que tinha umas oito horas de duração, apresentadas em duas partes em dias diferentes, era um tantão agressivo, desafiando a assistência a engajar-se na fuzarca sob pena de anátema. Em uma das cenas, O Muro da Confrontação, se bem me lembro logo no primeiro dia, desafiava a plateia a subir no palco e confrontar os personagens agora encostados na parede do fundo. Um fuzuê danado.

Na conversa que se seguiu à experiência do grupo que levei levantou-se a indagação “porque em artes plástica não se fazem coisas assim, tão vitais. (ou mais ou menos isto). Sobretudo a Anésia, endossada pela Ely Bueno. Daí surgiu a ideia que resultou em proposta para o MAC, na ocasião dirigido por Walter Zanini, proposta que indicava Alan Meyer, Helio Almeida -que mal conheci- e a mim para montarmos um algo que se aproximasse do que haviam visto no teatro.Trabalhei com Alan no ateliê emprestado pela Ely no Itaim, onde reunimos obras em papel de seis artistas e discutimos que relação era possível estabelecer entre eles. Estes artistas eram, além da Anésia e da Ely, a Anabella Geiger, indicada por elas e Baravelli; Tozzi; Savério Castelano;  indicados por mim.

Não tenho a menor lembrança de como se desenrolou a conversa entre Alan e eu. O que sei é que montei um gráfico que acabou sendo usado como cartaz e convite para o evento. Estava lá um comentário sobre o Barroco e a contemporaneidade, mencionando Velasquez, Tinguely... e um esquema espacial concêntrico com o miolo denominado inter;  camada intermediária denominada mater; e camada externa denominada exter.  Um olhar crítico localizou os artistas nas camadas que lhes correspondia, segundo sua vocação mais aparente do intimismo espiritual (inter) até a vocação por apresentar-se no mundo concreto com coisas concretas (exter), passando por uma espécie de expressão do processo de materialização da forma expressiva (mater). Deveria, é claro, haver comentários igualmente expressivos. Hoje não tenho mais a menor ideia do que isto quer dizer. Mas sei que tem muito a ver com o início dos anos 1970, com a repressão que sempre nos assustava, com avaliações das posições ditas burguesas; com a rebeldia generalizada e justificada; com o engajamento em criações coletivas; com a formação de comunidades (este substantivo designava coisa bem diferente do que designa hoje); essas coisas.

A ideia concretizou-se, fisicamente, com o financiamento do MAC para a compra de material: nove portas de 210cmX92cm foram estendidas no chão do meu ateliê, para forrá-lo, e sobre elas tiras de plástico transparente, com perto de cinco metros de comprimento e cerca de um metro e meio de largura calculado para funcionar como cortinas transparentes, uma vez presas no teto.

Sobre alguns destes plásticos pintei figuras de extração pop que, a meu ver, estariam comentando as figuras dos outros artistas (não sei se minha predileção por Rafael Canogar, Os Revolucionários, de 1968, veio antes ou depois destes desenhos. Mas o princípio era o mesmo, com estética, digo acabamento intencional, diferente. Canogar fez coisa realista. Fiquei entre o realismo e “imagem de urgência”, mais ou menos cara de historia em quadrinho a partir de imagens publicadas em jornais que permitiam um trabalho rápido e reconhecível de imediato). Os artistas convidados tiveram seus trabalhos presos com ilhós entre duas lâminas do mesmo plástico à altura do olhar desde a base da cortina transparente.

No teto do MAC, entre a parede curva do auditório e a do Espaço B que já não existe, fiz colocarem no teto ripas disposta em formato estelar e nelas foi pendurado o conjunto das cortinas transparente trabalhadas, obedecendo o critério exposto no gráfico que já mencionei

Convidei um grupo teatral, o Teatro Novo, formado e dirigido por Edelcio Mostaço, na época meu aluno na ECA USP, para fazer improvisações públicas –havia bastante gente assistindo- neste que chamei Ambiente de Confrontação. E o Alan convidou, para outro dia, também com público, o grupo de dança moderna da Maria Duschenes que trabalhava o método Laban no qual Alan andava interessado. Aconteceram, também, outras apresentações expontâneas.

Houve no final das contas um grande mal entendido: aquilo que era para os proponentes uma integração entre artistas, público e sabe-se lá o que, pareceu-lhes uma agressão, esquecidos que estavam na origem da proposta, Gracias Señor, Muro da Confrontação.

Artigos de jornal (pelo menos um de que me ocupei) e cartas e textos e atitudes... trataram de denegrir o evento.

Encerrado o período, a instalação foi desmontada, os trabalhos devolvidos aos artistas convidados e o material, plásticos com desenhos e demais está desaparecido.

Restam algumas fotos, umas do Arquivo do MAC, outras do Alan e umas minhas.

Gabriel Borba

Conjunto da Obra

Ambiente de Confrontação